O Editor – Trabalhando com o autor para um texto claro, legível e acessível

Ocasionalmente publico na Lura Editorial um texto sobre minhas experiências como editor de livros.  Vou atualizando aqui também.

O Editor

Trabalhando com o autor para um texto claro, legível e acessível*

A seguir, vamos abordar algumas questões a respeito do papel do editor na finalização do original. O editor é aquele profissional responsável por apontar soluções para os problemas no texto depois que o autor já fez a sua parte.

1.      Um texto não é um amontoado de palavras, não deveria ser!

Um escritor precisa extrair da linguagem o que de mais expressivo ela pode oferecer. Isso significa trabalhar o texto até a última sentença, cortar palavras, jogar com as vírgulas, parágrafos, até alcançar o ritmo, seu andamento próprio. Isso também se aplica às ideias e à forma como elas são expressas. Cada palavra guarda seus significados. Combinadas, palavras formam redes de significação. A palavra trama, dentre os seus múltiplos sentidos, quer dizer rede, conjunto de fios entrelaçados. Fios são ideias, ideias se entrelaçam para compor o texto.

Quanto mais um escritor entende o que seu texto quer expressar, mais se aproxima do que chamam estilo. Seu estilo é sua identidade textual, por assim dizer. O estilo é construído ao longo da vida, e toda experiência contribui para sua formação: mais importante é saber compreender a linguagem das coisas; entender como os objetos, pessoas, elementos em geral se comunicam. Por isso o estilo é algo pessoal, está intrinsecamente ligado a quem é o sujeito, suas experiências e disposições.

Pense em seus autores preferidos.

Agora se pergunte por que gosta deles, e não de outros. Observe como esses autores fazem para que o texto se comporte da forma como você lê, que tipo de ideias expressam, e principalmente, COMO expressam essas ideias. Isso é estilo.

Esses autores, todos eles, tiveram um editor, alguém que operou na finalização do livro dando ao texto uma espécie de direção. Editores, em geral, são invisíveis; você não sabe quem são, como agem, ou em que pontos realmente interferiram, mas eles estão presentes, e são imprescindíveis se você quer um texto claro, inequívoco, sem arestas desnecessárias. Encare o editor como o mestre lapidário que vai sugerir a melhor forma de aproveitar seu diamante.

O editor é aquele que procura entender a mensagem que o autor quer passar e que, por conta da experiência com a leitura de vários autores, é capaz de apontar soluções para os problemas de concordância e sentido que possam prejudicar a leitura.

2.      Um texto bem escrito é aquele que diz o MÁXIMO com o mínimo de palavras.

Chama-se princípio de economia das energias criadoras. Se analisarmos bem, faz bastante sentido: escrever um texto com mais palavras do que o texto exige é exagero e pode torná-lo excessivo, enfadonho. Se você se meteu a fazer uma coisa dessas — escrever — deve ter em mente que leitores, quando não gostam de um texto, costumam abandoná-lo prontamente, pois sabem que há outros textos melhores que satisfarão suas necessidades existenciais e de entretenimento.

Editoras costumam ter menos paciência ainda com textos mal acabados. Hoje, com a facilidade da publicação e a enxurrada de originais entupindo suas caixas de e-mail, elas precisam adotar critérios mais específicos para escolher o que vão publicar; e talvez o critério mais importante nesse caso seja o grau de acabamento de um texto. Ou seja: quanto mais bem acabado, menos trabalho a editora terá, e portanto, mais chance o original terá de ser lido e publicado. Daí a importância de um olhar profissional sobre o texto antes da submissão do original às editoras. Adquirir.

Para quem vai investir na autopublicação, funciona da mesma forma: não é por que tem mais liberdade para tratar o texto que o autor deva relaxar em um original mal acabado. Ninguém deveria investir dinheiro em um livro se não deseja que ele atenda aos padrões editoriais do mercado. A diferença entre um livro qualquer e o seu livro estará relacionada diretamente ao cuidado com que você o tratou durante a escrita e a edição.

Isso nos leva ao próximo passo:

3.      Escritores devem ler.

Não adianta: se você não gosta de ler, mas mesmo assim se julga um escritor, você provavelmente está equivocado. Seria mais proveitoso que procurasse outra atividade.

É no contraste com a estética do outro que percebemos nossa própria estética. Escritores são movidos por ideias. E ideias, muitos as têm. Escritores são aqueles que colocam suas ideias à frente de seus rostos, abrem mão de si para alcançarem-se no que têm de mais íntimo. São criadores. A pior coisa que pode acontecer a um criador é não estar à altura dos seus contemporâneos: corre o risco de repetir os erros que outros já cometeram e mostraram como podem se tornar acertos.

Os livros que lemos são nossas criaturas. Precisam de nós para fazer sentido. É no contato com nossos pares — sim, esses seres estranhos a que chamamos escritores —que aprenderemos a tornar nossas ideias ainda mais seguras.

4.      A chave da inspiração é manter-se nutrido de boas ideias.

Essas são colocações um pouco óbvias, até repetitivas. Uma volta rápida pela web e você encontrará vários artigos da mesma natureza.

Levando-se em consideração que você tenha terminado seu livro e queira publicá-lo, tanto para chegar a uma editora tradicional, como num esquema de auto-publicação (selfpublishing), a próxima etapa será submeter o seu original a pessoas que possam emitir uma opinião válida sobre o que você escreveu. É um momento interessante pra testar a reação de seus amigos, boas ideias podem surgir daí.

Seus amigos, no entanto, não oferecem a isenção necessária para detectar problemas mais específicos do texto. Para isso, você precisa de um editor.

Pela sua experiência, o editor será capaz de apontar soluções para os problemas de expressão do seu original, basicamente esforçando-se para compreender o que você diz, sugerindo, quando for o caso, maneiras mais eficazes de usar palavras e conceitos. Um editor deverá surgir quando, depois de terminado e revisto o conteúdo, o autor atingir o ponto cego, em que através da sua intervenção não seja mais possível melhorar o texto, mesmo que haja ainda problemas com a escrita; essa situação costuma apresentar os seguintes sintomas:

  1. a.      O autor modifica o texto inúmeras vezes até descobrir que a primeira forma estava melhor;
  2. b.     Desânimo generalizado em relação à própria escrita, não raro ocasionando abandono do texto;
  3. c.       Tendência para achar que tudo o que foi escrito é inútil e merece ser rasgado/apagado/deletado/excluído da face da Terra e do mundo das ideias.

Com uma visão nova, o editor o ajudará a encontrar o caminho certo para um texto bem escrito.

5.      Como trabalha um Editor?

Bom, cada profissional tem seus métodos, mas todos eles partilham do mesmo princípio que é o de ler o original atentamente, fazer anotações e sugerir soluções para problemas encontrados no decorrer da leitura. Isso vai desde uma sugestão de troca de palavras, uso de pontuação, até organização dos parágrafos, divisão dos capítulos e elucidação de ideias. O editor acompanhará seu texto atentamente, do título ao ponto final.

De minha parte, costumo trabalhar de duas formas. Quando o autor mora no mesmo estado que eu — no caso, o Rio de Janeiro —, marcamos um encontro e, depois que fiz leitura e as anotações sobre o texto, nos sentamos — pode ser em um café ou lugar mais calmo — e, cada qual munido de uma cópia, vamos comentando as passagens com as sugestões formuladas. Para o caso de distância geográfica que inviabilize o encontro, nos falamos via skype, que é uma ferramenta simples e funcional para esse tipo de coisa. De qualquer maneira, o autor recebe por email todas as anotações que o editor fez; a partir daí, terá novos parâmetros para finalizar o texto, certamente com um original enriquecido e pronto pra enfrentar o olhar do leitor atento e das editoras.

Entre em contato comigo se você acredita que o trabalho de um editor pode melhorar seu texto.

Grande Abraço,

JD Lucas
Penultimate_app_iPad_screennotes

RIGVEDA VIII, Hino 54

O RIGVEDA é o livro que contém os ensinamentos do hinduísmo. Das coisas mais bonitas que a humanidade já produziu.

Quando o sacerdote te invoca, ó Indra,
a leste, oeste, norte e sul,
acode veloz em teus corcéis.

E quando no rio do céu
te embriagas junto ao Senhor da luz,
e no mar, na bebida da soma,

com cânticos te invoco,
como a vaca no pasto, ó Indra, e te convido
à bebida da soma.

As raposas transportam, ó Indra,
ó Deus, tuas grandezas e teu poder
na junta de teu carro.

Eu te louvo, ó Indra, eu te exalto
Senhor grande e poderoso.
Vem e toma de nossa bebida.

Nós te convidamos com a nossa bebida
com nossos manjares te convidamos
a sentar-te conosco sobre a palha.

Porque tu és o bem de todos,
porque a todos proteges,
por isso te invocamos.

Com pedras espremeram
os homens para ti esta doce bebida;
bebe-a, ó Indra, com deleite;

Não escutes aqueles que invocam
e não te amam, e acode a nós,
para conceder-nos tua glória.

RIGVEDA VIII, Hino 54

indra

A Inocência Original

É contingente que pioneiros sejam tratados por levianos, que sua conduta seja associada ao erro, inevitavelmente recaindo sobre estes um estigma. Todo aquele que tenta propor novas regras num jogo, ou outra perspectiva de pensamento, novos modos de ver a situação, geralmente é alvo de preconceito. Galileu Galilei ousou professar que a Terra girava em torno do Sol, rebatendo a doutrina Geocêntrica imposta pela Inquisição, e amargou a prisão pelo resto dos seus dias por ter ousado sugerir — pelo menos na cabeça dos que o prenderam — que a criação divina é que estivesse girando em torno de um astro que foi durante muito tempo associado a divindades pagãs. Foi um corte entre o pensamento dogmático religioso e o modo de ver científico. A partir dali, Johannes Kepler pôde formular questões sobre a mecânica celeste, que abriu precedente teórico para Isaac Newton chegar até a concepção de gravitação universal, modelo de pensamento que usamos ainda hoje.

As narrativas mitológicas também têm algo a dizer sobre isso. Pra citar dois exemplos clássicos, temos o mito de Prometheu, Titã responsável pela criação humana, que roubou de Zeus o fogo e o entregou aos homens, a incauta Eva, que prova do fruto do conhecimento. Prometheu é condenado a sofrer que uma águia lhe arranque o fígado todas as noites enquanto está amarrado a uma rocha, enquanto Eva e seu companheiro sofrem uma série de sanções, especialmente terem de abandonar o idílio e ganharem a vida com suor no rosto, labutando sobre a Terra. Com o fogo, Prometheu entrega aos homens o controle sobre seu próprio destino, transferindo-lhes o conhecimento da forjaria, do cozimento dos alimentos, da proteção contra os predadores, da clarividência.  Eva, no mito do Gênesis, é expulsa da perfeição paradisíaca por ter, junto com Adão, ousado tornar-se igual a Deus, conhecedora do bem e do mal.

As atitudes nos dois relatos são de pura inocência. Eva, para ter comido do fruto, necessitou ser enganada pela astuta serpente; e o que é a serpente senão outra face do mesmo deus que diz para comer de todo fruto do Jardim, menos da árvore que está no centro — ou seja, instaurando a desconfiança e a curiosidade, que são a própria base do conhecimento? Prometheu quer levar à máxima obediência a designação do próprio Zeus de que deveria criar a humanidade; o que seria da humanidade, afinal, se não tivesse o conhecimento da preparação do fogo? Para obedecer plenamente a Zeus, Prometheu necessita desobedecê-lo. Aliás, a etimologia arcaica de Prometheu é pro “antes” e manthano  “aprender”, ou seja, aquele que aprende antes.

A pena imposta aos que têm ideias e decidem pô-las em prática é o trabalho. Nenhuma ideia útil veio à tona sem que com isso se precisasse devotar-lhe sacrifícios diários (fígado de Prometheu) e busca por conhecimento (expulsão do conforto). Benefícios exigem sacrifícios.

O leitor agora tomará o fogo – este fruto que lhe dou – e conhecerá tudo quanto haja para ser conhecido.  

A coragem de enfrentar julgamentos e trazer todo um novo conjunto de possibilidades para o campo da experiência interpretável, para serem experimentadas por outras pessoas, é essa a façanha do herói.

 Joseph Campbell

Sete e meia

Sete-e-meia

A mãe diz que o Sete-e-meia  agora está num lugar melhor mas eu duvido muito que tenha um lugar melhor do que a laje do seu Mariano onde a gente subia pra ver o céu quando ficava de noite.  Enquanto eu olhava as estrelas tentando juntar as constelações, o Sete-e-meia ficava mirando os buracos entre elas, dizendo naqueles espaços negros ali tem um monte de coisa que a gente não conhece.
Às vezes pingava uma estrela cadente e cada um fazia o seu pedido. Uma vez o Sete me perguntou se eu tinha pedido o quê, e eu disse não posso contar porque senão não realiza, e ele ficou insistindo e eu tive que inventar uma mentira dizendo que quem sabe do pedido do outro morre, e ele riu e me perguntou assim mesmo de novo mas eu não disse e os dois ficaram calados ouvindo o cri cri dos grilos.

2304849989_2eeb203405_z

          De vez em quando fazíamos plano de fugir pra conhecer a cidade e o cinema só que na hora acabava desistindo com medo de tomar uma surra.

            Um dia ele me acordou chamando desesperado pra mostrar uma coisa que tinha acontecido. A mãe não estava e ele me levou até a rua de cima onde tinha estourado um cano grande e a água tinha formou um lago fundo e largo onde as pessoas estavam tomando banho na maior alegria. Como não sabia nadar, o Sete ficou lá só olhando os outros, com um sorriso curioso, querendo mergulhar também, mas com medo de se afogar. Eu já fui pulando de bombinha pra espirrar água em todo mundo! Nadei a manhã inteira e quando chegou a hora do almoço e o pessoal foi pra casa o Sete me chamou pra ver uma coisa do lado de fora. Pediu pra eu esperar só um pouco e me mostrou o céu aparecendo clarinho na água. O azul, as nuvens, um pássaro, tudo igualzinho! Achei bonita aquela visão e insisti pra ele dar um mergulho comigo, que um só não fazia mal e ele me olhou daquele jeito esperto dele e disse que sim. Um dois três e já! Demos um pique e caímos feito bem do alto, como se estivéssemos mergulhando no céu.

Depois saímos dali batendo o queixo de frio e sorrindo muito de felicidade e aquela foi a última vez que vi o Sete-e-meia. De tarde ele foi atropelado por um ônibus desses que acabaram de chegar por aqui e agora a mãe está me contando isso e eu estou chorando. Não adiantou nada naquele dia eu não contar o meu pedido pra ele porque assim mesmo ele morreu.

Desconfio o Sete ter pedido pra ser astronauta porque ele adorava o céu e as estrelas e a Lua, mas não conseguiu realizar o desejo se foi isso mesmo que ele pediu. Já eu, da próxima vez que vir uma estrela cadente vou desejar que meu pedido daquela noite não seja realizado, porque eu pedi pra viver até cem anos igual o vovô vive, mas se eu ficar adulto até isso tudo, quando chegar no céu vou ser muito velho e não vou conhecer mais o meu amigo Sete-e-meia.

À memória de Daniel

De sonhos

Este texto foi escrito como introdução ao tema dos sonhos para um sarau de ideias com amigos. 

De sonhos

Desde criança meus sonhos me intrigam. O primeiro de que me lembro é estar num lugar escuro, sem temperatura, onde há um palanque em cujo centro há a estátua branca de um homem bonito, forte e altivo, com um ramo de louros atrás das orelhas e um figurativo S no peito. Um corte brusco e de repente a estátua está viva, desceu do palanque, e agora gira violentamente comigo nos braços, prestes a me arremessar naquele escuro, para o alto. Aos seus pés, uma cadela de minha avó que ainda existia na época, latindo furiosamente. A cadela também é branca. Talvez a pior sensação que já tenha sentido alguma vez, pelo menos em sonho. Quando se tornava insuportável, eu acordava. Um sonho recorrente que, tenho certeza, influenciou — determinou — meu total desinteresse por parques de diversão.

Outros sonhos se seguiram. Num deles, a imagem do Cristo sangrava esperma. Esse sonho também era recorrente, e data da época da descoberta da masturbação; era acompanhado de uma culpa inominável.

Mais adiante, com a separação de meus pais, a ida para a casa de minha avó, cheguei a sonhar que minha mãe se estava de pernas abertas de pernas abertas aguardando minha penetração, ao que meu pai, triste, tocando meu pênis, o desviava da entrada.

Em seguida sonhei que a cabeça de meu pai me perseguia, flutuando, muito triste — chorava — numa paisagem mítica em ruínas, cemitério ancestral, coberto por um céu esplêndido de estrelas.

Minha primeira experiência sexual na adolescência foi interrompida bruscamente por meu pai, e aquele drama da impossibilidade da penetração continuou revolvendo minhas experiências oníricas. Em sonho, estava envolvido em alguma situação de flerte, conseguia levar a menina para o lugar onde faríamos sexo mas de pronto aparecia alguém e tínhamos de nos esconder ou dissimular o que estávamos fazendo; nunca realizava a penetração de fato.

Creio que estes sonhos cessaram quando completei dezenove anos. As circunstâncias me obrigaram a voltar a morar na cidade onde passara a infância presenciando brigas, traições, onde tinha sofrido todo tipo de violência. Tornei a morar na casa onde havia crescido com meus pais e minha irmã, mas ela agora não tinha móveis, só uma escrivaninha e um colchonete. Eu estava sozinho e usava uma caixa de papelão pra guardar minhas roupas.

Dos dezenove, não me lembro de nenhum sonho. Foi um período tão deprimido que possivelmente eles não atingiam a substancialidade necessária para se expressar. Datam dessa época meus primeiros escritos de ficção, quando me enfiei nos livros e passei um ano ou mais apenas acordando pra ler, fazer uma refeição de vez em quando e escrever. Sempre muito.

Depois que passei por esse período sombrio os sonhos foram se restabelecendo, expressando significados cada vez menos usuais.

Interessei-me pelos escritos de Jung, devorei mais de uma dezena de livros do médico sobre o assunto e descobri que há uma raiz que nos alimenta de expressões quando sonhamos: o Inconsciente.

Passei a observar mais ainda meus sonhos e de outras pessoas, agora buscando a uma via de interpretação simbólica, o que me deu muito trabalho, porque primeiro, o símbolo, como unidade expressiva, se confunde com o objeto a que pretende simbolizar. Confusões de toda ordem motivadas por equivocadas interpretações ao pé da letra me tiraram do eixo do aceitável e me levaram muitas vezes ao erro.

auspicious_conch_ashtamangala_mandala_with_the_to92

A natureza arquetípica fundamental é incognoscível, e necessita de vias de expressão mais próximas dos sentidos humanos. A partir do momento que um drama se consubstancia, ele atinge a via onírica, e sonhamos. Para se expressar, o arquétipo utiliza uma linguagem de símbolos, onde cada elemento está intimamente implicado ao outro.

Podem os sonhos acessar uma raiz fundamental mais abrangente, que abarque os inconscientes pessoais de maneira a formar um todo expressivo comum aos seres? Sim, a resposta de Jung, com o qual compartilho opinião.

Confrontando sonhos e comportamentos verbais de seus pacientes em um hospital psiquiátrico, Jung encontrou conexões entre aqueles delírios e a constituição do que seriam os sonhos da civilização, a saber, os mitos, narrativas  extraordinárias que remontaram ao período inicial da humanidade, numa tentativa de explicar, simbolicamente, quais foram os termos da criação e as questões do homem diante da vida. A essa raiz antiga, atemporal, Jung deu o nome de Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente coletivo é, em suma, o lar dos arquétipos, unidades fundamentais de expressão da psique. Aqueles mesmos aspectos que em nossos sonhos representam funções de nossa existência.

Essa foi só uma introdução, podemos começar o debate a partir daqui. Sonhos são feitos de matéria escorregadia, então, lembrando o velho suíço, gostaria de deixar uma dica pelo bom andamento do encontro: Quando uma questão se recusa a ser respondida pelo intelecto, devemos deixar de fazer dela um problema de ordem intelectual.

A via, meus caros, está aberta.

Vamos confabular.

Corpo

 

[Do romance Histórias Reais Seres Imaginários]

As batalhas do corpo. Nenhum instante será mais glorioso.  Ela deve ter fugido de uma pintura, escapado enquanto Modigliani lavava os pincéis. Daquelas ninfas torturando o sátiro numa clareira, dançando e se exibindo à sua volta, oferecendo suas maravilhas e retirando logo em seguida, para instigá-lo ao limite da loucura.

 

Cabelos: fios de Sol escorrendo pela nuca, claro muito brilho intenso. Sonho em dourado.

Boca: é uma que lambe os lábios para ficar mais atraente. Que faz biquinho e se insinua. O abismo úmido e quente.

Seios: A dor de observá-los macios e redondos. E trepidavam quando ela ria. Dois filhotes de gato brincando.

As Pernas: grossos rolos do tecido mais macio. Roçando uma na outra, seriam o último desejo do sultão Abul Qasim. Ele a compraria pelo preço mais em conta e a cobriria de colares e pulseiras do mais precioso jade. A nudez sem véus.

Bunda: A montanha mágica. Se redonda, grande, se macia, branca; qual queda d’água de onde me precipito, delírio de sodomita. O último alento é vê-la dar as costas.

Era uma presença que se insinuava e se despedia, até que a coragem de um gracejo:

— Deus abençoe.

Duas bombeadas de sangue e meu anseio endurecia. Ela achava graça do menino magro com uma estaca no bolso. Alisava por cima da calça:

— Que bonitinho, tá latejando…

A voz mais esganiçada. Encher sua boca para que não possa falar. Ela ri: os pássaros voam em debandada. Oh Deus, eis o equilíbrio. Acaso tivesses dado a ela a capacidade de atrair os homens pela voz, pediria aos marinheiros que seguissem de ouvidos lacrados e me entregaria ao sabor das ondas contra a rocha. Uma sereia estridente.

Ela brinca, exibe os dotes de fêmea irrepreensível. Cortesã. Meretriz. Vagabunda. Tudo o que eu queria ela zombava. Só ela podia tocar, só ela sentir o latejo, e eu desejava mais contato, queria arrancar sua roupa, roçar a pele, morder a carne úmida. Ela ria, desgraçava o ar com a voz gritante, eu recuava, amedrontado pelo mau acento; filha da cacofonia.

Deitados no chão da sala, ela dissimula atenção no vídeo enquanto a mão cheia de olhos escorre pelo ombro, desce a alça da blusa e revela o seio mais lindo. Pronto, estou a mamar. A língua titila o bico castanho claro, morde a ponta, ela delira; é toda minha a carne branca.

Experimento o primeiro beijo. Lábios se conhecem, línguas se confundem.

Quando surge minha irmã, peste das pestes, em estardalhaço, tornando tudo salivação.

Ponho-me a persegui-la novamente, refazer o caminho da intimidade. Ela graceja, sobrepõe a gargalhada dissonante, eu me recolho ao banheiro e vou terminar debaixo do chuveiro de desnudá-la, abrir suas pernas e penetrar o paraíso aveludado.

 

Eu, quiromaníaco.

 

 

557234_331467613568451_100001156460539_831791_394429764_n

 

 

Wisława Szymborska e Outras Coisas Impronunciáveis

Wisława Szymborska e Outras Coisas Impronunciáveis

Lembro de uma frase apócrifa de William Burroughs que diz: nunca comece um texto citando William Burroughs.

Por trás de toda metalinguagem há uma crise. Todo sistema, todo discurso, expressa a si mesmo e sobre si mesmo, então, por extensão de sentido, todo discurso, todo sistema  é metalinguístico. A linguística chama de metalinguagem a auto referência explícita no conteúdo da mensagem à própria mensagem em si. É como um espelho de frente pra outro. Um paroxismo do discurso.

Ok. Chega.

Dia desses fui à livraria do CCBB aproveitar uma folga e procurar por Harold Bloom:

— Agora soletra, por favor.

— Harold. Haroldo com H e sem O. Bloom é Bê éLe Ó duas vezes e êMe.

Tec tec tec. A atendente buscava no sistema quando o sujeito gordo apareceu:

— Não vai atrás disso, não vale à pena…

— O quê? — olhei nos olhos atrás dos óculos de armação preta, em suor e fones de ouvido.

— Tá bom, tudo bem, até mais, tchau!

Um inferno esses celulares hoje em dia. Você acha que estão puxando assunto mas estão conversando remotamente. Parecem uns loucos falando sozinhos. Leva três segundos até perceber que é um celular; três segundos até você se sentir um idiota falando sozinho com alguém que parecia estar falando contigo, mas que está falando sozinho, quer dizer, com alguém, mas remotamente.

— Não tem. Harold Bloom nada. Aqui é mais livro de arte, tenta na outra loja.

— Quem? — O gordo falando comigo sem me olhar.

— Harold Bloom. Crítica Literária.

Muxoxo. Devia ter o dobro da minha idade e me fez um muxoxo. Foda-se, pensei. Daí pôs um livro no balcão com uma nota de 20.

— O que houve com Clarice? 20 reais por Clarice é um crime!

Clarice Lispector é daquelas autoras que são mais citadas do que lidas. Ela e Caio Fernando Abreu. Clarice diz que quando a linguagem falha, o indizível está sendo dito. Caio li, mas não lembro nada. Clarice não li ainda. Qual o problema de Clarice por 20 reais? Ó o gordo querendo gastar dinheiro.

Vou a uma estante atrás da vitrine. Livros de colegas. Nos agradecimentos de um deles meu nome, lá na última página, pequenininho, em ordem alfabética, no meio de um monte de outros nomes. Mas é meu nome de batismo, não o que eu escolhi pra sair nos jornais e ilustrar a capa dos meus livros. Não faz mal, um tijolinho no céu.

Outra prateleira, o gordo ao balcão fazendo trocadilhos pra irritar a balconista.

— Essa aqui é qual Travessa?

— O quê?

— é Livraria da Travessa, Travessa de salada ou rua que a gente atravessa?

Saio, vou à lanchonete, tomo um café com um fuquaçã ou qualquer nome que deram pra joelho de queijo minas. Quando volto o gordo ainda está lá, distraído na seção de CDs e DVDs. O segurança e a balconista conversam, sorridentes, me convidam a entrar na conversa:

— Quando teve aquela exposição do Miles Davis aqui, que botaram aquele totem dele lá fora, toda hora vinha gente perguntar se ia ter show. O cara morreu há vinte anos! Não é possível!

Pequenas explosões, a balconista, o segurança e eu. Um momento de paz, até que o gordo:

— Que você disse?

O segurança repete:

— A exposição do Miles Davis, puseram aquele totem aqui…

— Mas… o tó, tem?

Desconfigura a alegria o rei dos trocadilhos. A balconista desaparece, o segurança olha com indisfarçável desgosto e ejeta para um cafezinho, vou à estante central: uma senhora com rosto mais ou menos oculto atrás da fumaça de um cigarro:

Wisława Szymborska

A polaca Nobel de literatura, morta na mesma semana. Um livrinho fino e bilíngue. Jamais poderia tê-lo comprado. É como se tivesse pagando o dobro do que realmente valia, já que não sei ler polonês. Na orelha dizem que é a grande poetisa de seu país, muito boa em trocadilhos.

Tem um magnetismo que me obriga. E um cadeira acolchoada pra sentar e ler. De uma vez o livro todo, menos, é claro, a metade em polonês, que não sei ler, mas passo a vista naqueles nomes impronunciáveis do tipo tłuszc, bezpieczeństwo, urzędnik, chwila spokoju, ciekawy czytelnik…

Volto à prateleira flutuando a 20 cm do chão. Os poemas! Só o gordo arrimado ao balcão enfia a cara pra ver que livro eu estava lendo.

— Essa aí eu não gostei. Conheci. Muito sebosa.

Seboso.  Vomita um impropério e quer beber água de coco.

Ponho o livro de volta, o gordo reclama de problemas de memória, eu provoco:

— Muita maconha.

Ele nem me olha.

— Não, nunca fumei isso.

— Sinto muito.

— Estou envolvido em práticas espirituais.

— Que tipo de práticas?

— Práticas.

— Tem gente que usa isso nas práticas.

— Veja você, não fumo nem bebo, sou um cara totalmente…

A exposição de mil virtudes escandalosas. Dá-lhe gordo, chato pra caralho!

Penso em ir embora, ele vai saindo também, recuo: já pensou se vai pro mesmo lado que eu? Recuo.

Sumido o gordão, vamos ao papo, o segurança e eu, a balconista apenas sorri.

Comentamos os trocadilhos, o segurança repudia com gravidade, depois sereno:

— Pelo amor de Deus! Vamos ser francos… e quando ele falou aquela do totem? Jesus! O tó tem! E aquela da Travessa? Nossa Senhora! O cara misturou travessa livraria com travessa de salada e travessa de quê mesmo? Que que é isso!

O segurança vai preenchendo o vácuo com outras palavras, enquanto sobe num banco pra ajeitar uma lâmpada.

— É cada um que aparece aqui rapaz, mas você tem que engolir, respirar…

Toca um despertador, o homem avança em minha direção, me toma pelo ombro e conduz para fora:

— Vamos fechar.

Assim, bruscamente. A tensão se desfaz, despede-se afetuoso, a balconista também, baixa a porta, pronto, é noite do lado de fora.

Wisława Szymborska. Não esquecerei daqueles poemas cheios de trocadilhos que eu não li porque não sabia polonês. Já o gordo, esse foi pra lugar nenhum morder suas próprias palavras e reclamar do gosto, inventar motivos pra reclamar da vida — ou do quanto são baratos os livros — falar sozinho no meio da rua como um louco, ao celular.

Um inferno só dele.

 

 

 

wislawa

 

 

 

Diana

[Do romance Histórias Reais Seres Imaginários]

Diana era ninfomaníaca, e não gostava que eu ficasse por cima.

Já me esperava de banho tomado, com a toalha enrolada na cintura, os grandes seios à mostra. Conduzia-me pela escada caracol até o quarto de seus pais, onde se livrava da toalha e me despia.

Não alcançava bem o que era aquilo que inventávamos. Diana fazia com que me deitasse e vinha por cima. Seu corpo era maior que o meu. Mirava os seios brancos de bico claro — o esquerdo maior e com uma pinta — e sentia sua carne escorregando sobre meu quadril.

Éramos papai e mamãe. Na parte de baixo ficavam minha irmã e seu irmão, nossos filhos.

O quarto era o único cômodo na parte de cima da casa. Enquanto Diana cavalgava, o teto alto, o guarda-roupa, o girovisor, a televisão, o cinzeiro no criado mudo, o calendário e as fitas do vídeo cassete pareciam se estranhar. Tudo co-existia em completo estranhamento, como se fosses partes de vários outros quartos montadas num quarto só; o espelho do guarda roupa devolvendo nossos corpos nus, Diana rebolando enfática, a respiração aguda e cheia de gemidos, um transe.

Quando meus sentidos começavam a falhar e a ação se tornava absurda, distinguia o relógio sobre o criado-mudo e dizia, querendo encerrar com aquilo: Precisamos buscar as crianças!  Mas a prima me detinha sob suas pernas:mais um…

Eu tentava assumir a posição ativa, Diana se sentia pouco à vontade.

— Não — uma súplica e uma ordem— deixa que eu fico por cima

Minha mãe e Diana costumavam tomar Sol na laje colada ao quarto em que nos derretíamos. Trocavam risadinhas sensuais falando em meio-tom. Nunca interpelou nada sobre minhas tardes na casa da prima, só me lançava um olhar por cima dos ombros quando depois do almoço, a irmã e eu, íamos brincar com os primos na casa de trás.

Diana era uma mulher formada, a despeito de seus doze anos. De seios grandes e duros sobre o dorso largo. Os cabelos escorriam pelas costas, longos e molhados, as pernas subiam num ângulo convidativo para o tufo baixo de pelos. Não podia evitar, ela era um labirinto.

Eu experimentava a quentura de seu corpo me encobrir quando o mundo ruiu.

Uma vertigem se insinuou, subiu num formigamento pelas pernas e ganhou o peito. O coração datilografava absurdos, meu rosto contorcido de dor e outra coisa. Durou muito. Algo que fez embaralhar os sentidos.

Abri os olhos e fixei a pinta marrom no seio esquerdo: só ela existia. Tudo o mais girava, as coisas se amalgamando. Já não era o cinzeiro, o girovisor e o videocassete; não era o espelho, mas Diana. Vibrávamos. Segurei-lhe os ombros para tentar pará-la, o gozo explodiu. De dentro do meu mundo escuro e vago ouvi o grito percorrer a sombra de nossos corpos emergindo do líquido.

Só me libertei quando ela caiu pro lado, inundada de suor.

Quando entrei em casa, minha mãe tentou um interrogatório. Desvencilhei-me das perguntas padecendo de uma forte dor de cabeça, e mergulhei na cama, para um desmaio profundo.

kt07300

ôOôÔ – Uhhh!

Cada vez mais fico com vontade de dizer menos sobre qualquer coisa, deixar o silêncio abrir assim, uma fenda entre as palavras, esburacar e ferir o aturdido companheiro ali do lado, incauto, desapercebido, montes de idéias.

Uma só é aquela realidade especial que vibra quando ouvimos a palavra incêndio: nossas almas ardendo eternamente naquele fogo todo, um inferno mais ou menos conhecido, pouco de desespero, muito de abraço, eu e você nós dois ali juntos e mal apagados.

ôOôÔ a vida é uma canção dos Smiths, o Morrissey vocalizando aquele ôOôÔ fanhoso dele e você dançando como se fosse uma louca, parece que perdeu o senso do que é teto e chão mas não você está em transe voltando agora com um sorriso meio tonto e sacana no rosto, toda bem feita de carne.

 

É um desespero sabia? Olhar isso de frente , depois de tudo o que aconteceu. Quanta coisa mudou em quanto tempo e tudo podia ter sido tão menos se a gente não quisesse  mas você quis, e nos beijamos no elevador como se aquela fosse a última vez que nos víssemos e parecia que ia tocar aquela canção do Lionel Richie e foi só do primeiro ao segundo andar, porque nosso quarto era o duzentos e dez com aquele frigobar cheio de coisinhas sei lá às vezes eu penso que a vida podia ser menos complicada, muitas convenções desnecessárias por exemplo eu e você aqui agora que  mal tem isso tudo devia ser como com garrafas longneck, facinho de abrir mesmo só girar e zup viu só.

 

 

A Canção do Lionel Richie